É difícil falar de 2022 sem tecer algum comentário sobre o MOTOMAMI (Rosalía), tanto quanto é impossível citar 2024 sem mencionar o BRAT (Charli XCX). O que ambos os álbuns têm em comum, sobrepassando a boa recepção da crítica e do público — mesmo diante de sonoridades tão específicas —, é o risco de fracassar.
Na tentativa de desenvolver trabalhos concisos, a nível de inovação e originalidade, muitos artistas entregam repetições de fórmulas seguras, criando obras confusas que, tendo bastante sorte, são abraçadas por seus fãs mais fiéis como injustiçadas. Penso o ARTPOP (Lady Gaga) como um exemplo disso: envelheceu feito vinho. Espero que Solar Power (Lorde), Love + Fear (MARINA) e Serpentina (BANKS) alcancem igual êxito.
Ainda no início de um novo ano, me sinto na obrigação de afirmar que o nome de FKA Twigs dificilmente passará despercebido em 2025. Correndo todos os riscos, Tahliah Barnett não hesitou em doar-se completamente à sua expressão artística, alcançando lugares onde não esteve antes. Se a mixtape CAPRISONGS já parecia despretensiosa e apresentava roupagem diferente da erudita, agora ela está despida — não só nos visuais. Após colaborar com The Weeknd em tears in the club e viralizar de forma sutil com oh my love, FKA retorna ao pop com a segurança de quem não precisa do pop: é o pop quem precisa de FKA.
Dedicado pela multiartista a todos os sobreviventes de abuso, EUSEXUA, em termos líricos, soa como um convite ao transe, ao clímax, à epifania e à quintessência — não necessariamente nessa ordem ou com os sinônimos dispostos; um convite à experenciação de um estado elevado de consciência, ampliando a percepção da realidade para além dos traumas pelos quais a vivência humana pode ser atravessada. EUSEXUA reverbera, por fim, como uma busca introspectiva pelo princípio vital que dá sentido à existência e que confronta determinadas funções sociais, inclusive desempenhadas para lidar com a insegurança, o medo e a dor.
Grandes chances de se tornar o meu favorito dela.
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