Despedida

Acho constrangedor quando alguém menciona a minha genitora, enfatizando que ela é uma ótima pessoa e merece ser perdoada. Eu não discordo disso, mas não sei se concordo. Todos nós somos bons e maus em escalas diferentes. Expulsar um filho de casa não me parece benevolência, a menos que meus olhos estivessem vedados pela romantização do amor materno e pela culpa cristã. Não estão. Não gosto de me colocar enquanto vítima, nem mesmo esse lugar me foi assegurado, mas onde eu estaria hoje, não fossem os meus amigos e conhecidos que, por empatia, estenderam mãos, braços, asas? Talvez na rua, muito provavelmente dentro de um caixão, porque é isso o que acontece na maioria dos casos de expulsão. A expectativa de vida diminui de acordo com a perspectiva daquilo que se vive. 

Eu não vou perdoar a minha mãe, tenho certeza de que não, porque não aprendi a perdoar. Murro atrás de murro, tive que gritar, xingar, virar bicho. Que tipo de ser humano, afinal, precisa trocar de pele para impor algum respeito? Somos assim, tão selvagens? Quando penso no dia que deixei aquela casa, penso também que deixei-a tanto antes... saí pela porta da frente anos atrás, quando percebi não ser bem-vindo. Tudo em mim parecia deslocado, tudo em mim soava fora do lugar: meus sentimentos, minhas crenças, meus gestos. E foi extinguindo, cômodo por cômodo, que observei os destroços do que, até então, acreditava ser amor. Minha relação mais abusiva foi a materna. eu amei tanto a mulher que me gestou, mas já não a reconheço como mãe, somos dois estranhos que não dividem nada mais, nem um mesmo teto. 

Eu poderia citar as cicatrizes dos últimos anos, eu poderia buscar jeito de fazê-la entender o quanto fui machucado nessa rede de mentiras seguidas de violências, mas seria como tentar explicar à uma cobra que seu veneno é, sim, capaz de matar. Me dói saber que, se eu tivesse me suicidado, até mesmo a minha partida, teria sido enredada num roteiro com ares de divindades que mais parecem demônios, onde a realidade está prostada ao que convém, não aos fatos. 

A partir do momento em que me disse como sou, me tornei outro aos seus olhos. Um outro que conheço ainda menos do que você. Você nunca esteve preparada para lidar com a alteridade, você nunca esteve preparada para ser mãe. Observo outras mães com os meus olhos, os olhos que fechei durante uma existência inteira, olhos até hoje tão prematuros, olhos infantilmente marejados ao mínimo de emoção, e não te percebo. Você não se parece com elas, e eu não te culpo por isso. Me culpo bem mais. Na superfície, sempre esperei que sim. Almejei que pudéssemos ser melhores amigos ou ao menos melhores do que fomos.

O suicídio é a minha única certeza. Saber que, se tudo der errado e eu não conseguir suportar mais esse peso, posso simplesmente ir embora, me causa alívio, confesso. Me pergunto se não sou só eu, se o restante do globo se sente igual, mas não tem coragem de admitir em voz alta. Entretanto, o que me sobrou, senão a verdade? senão a possibilidade de ser honesto com o que sinto? 

No fim do dia, você abriu uma de suas casas para que o meu irmão morasse com mulher, enteada e um agora filho recém-nascido. Pois é, eu tenho um sobrinho, e soube tê-lo apenas depois de nascido. Um sobrinho que anseio não desviar da normatividade impregnada nessa família, para que não adoeça. Que cresça falando feito homem, andando feito homem, comendo feito homem. Que cresça à sombra do pai e depois do avô, nunca do tio.

Se eu, um homem e uma criança, precisássemos de colo, todos os três, seríamos abrigados ou despejados? tenho a resposta antes mesmo de conceber a hipótese, mas indago, para que saibam de sua intolerância jamais admitida. Cada um de vocês é preconceituoso de formas que não noto aqui fora. Cada um de vocês fala em nome de um Deus que, diante do ódio, vira o rosto. Um Deus que me mantém de pé, não pelos joelhos dobrados de uma mãe, mas pela fé que tenho em mim, enquanto criação celeste que fui, sou e serei mesmo após o último respiro, queiram vocês ou não. 

E se começo escrevendo pra ti, mãe, termino escrevendo pra todos. Não aponto um dedo, mostro as unhas e as sujeiras escondidas nelas, também. Exponho a nudez do meu corpo, exponho as veias que pulsam em meu coração. Para que nunca esqueçam do quanto estou consciente e do quanto sei. Suas ações ficarão impunes, assim como seus efeitos, mas a realidade não mais será alterada. Porque eu não permitirei que seja.

E se eu partir, me deixem descansar. Se eu partir, me deixem partir.

resenha: não fossem as sílabas do sábado

Pinterest

São 03h25 e eu certamente deveria estar dormindo, mas num estalo de insônia resolvi terminar de ler “Não fossem as sílabas do sábado”, livro que escolhi como companheiro no longo trajeto que faço à minha dentista, mensalmente. Agora terei de separar outro, espero que algum tão bom quanto. 


Para começar, preciso dizer que estou completamente apaixonado pela escrita da autora. Mariana Salomão Carrara, muito brilhantemente, discorre sobre uma situação inusitada, por assim dizer. Imagine que uma pessoa, ao se atirar da janela de sua casa, mata junto de si mesma uma outra que transitava lá embaixo. Suícidio e homicídio, os dois entranhados feito uma só coisa. Miguel e André, dois homens que moravam no mesmo prédio, praticamente desconhecidos, de repente tão íntimos na calçada. Miguel era marido de Madalena; André era marido de Ana. As vizinhas também não se conheciam até tal episódio, mas a história se desenrola de uma forma meio curiosa, meio caricata, até, embora fidedigna, e de repente surge essa amizade improvável e cheia de ressentimentos. 


As viúvas de início precisam alinhar o que sobrou e, querendo ou não, manter comunicação, diálogo. Madalena tenta, à sua maneira, oferecer suporte à Ana, que está cheia de dedos, apontamentos, julgamentos, paranoias. Ana é um poço de rancor, mágoas a fio, profundamente amargurada, mas dona de uma tristeza que só existe em função do amor. O amor que, ela bem sabe, possui a capacidade de construir casas, projetos, famílias. Toda uma arquitetura voltada ao quanto alguém pode sentir, ao quanto o afeto ganha forma através das coisas: de uma orquídea, de um quadro gigantesco e pesadíssimo, de um ultrassom mantido em segredo-surpresa, de uma marcação no livro que está sendo lido. Marcação feita com o desenho de um coração e um lembrete em forma de nome próprio, que não deixam de ser também uma mesma coisa entranhada. 

Pinterest


Na minha leitura, “Não fossem as sílabas do sábado” é um livro que utiliza a morte enquanto artifício para ilustrar a vida e as suas banalidades. Do ego à materialidade, da projeção de um trauma à nossa completa ausência de preparo em relação à falta. É impossível não se colocar no lugar de Ana, não se perguntar o que faríamos no lugar dela que, além de perder o pai da criança abruptamente órfã que nasceria meses mais tarde, tinha ainda que lidar com a volta à rotina e outras trocentas questões comuns à normalidade. O luto, afinal, é solitário. A demonstração de tristeza tem prazo de validade estipulado, se não azeda, se não os amigos se afastam, se não ninguém consegue suportar uma companhia assim tão deprimida. 


Mariana Carrara escreve irônica ou é Ana quem ironiza? Só vou saber quando ler alguma outra obra dela. Por enquanto, posso recomendar que leiam. Leiam e se percam, como eu, na dor e na maravilha que é estar vivo. Li as últimas páginas aos prantos, a propósito. Mas um choro de felicidade, é claro, por ter aprendido tanto com personagens femininas corajosas diante da dureza daquilo que nos é imprevisível.


Nota 5,0/5


resenha: o céu para os bastardos
Rodrigo Yudi Honda

Essa do título, é a primeira literatura de ficção que concluo em 2026. E preciso dizer que não foi uma leitura fácil. Não por conta de sua história, mas pela escrita inventiva de Lilia Guerra. "Inventiva" é boa palavra para desenhar as muitas voltas que Sá Narinha dá até chegar ao seu destino final.

"Os sonhos nem sempre cabem na gente." (pág. 74)

Em Fim-do-Mundo, comunidade imaginada pela autora, há Maria Expedicionária, uma empregada doméstica com histórias para contar. Histórias que contam de sua gente, de seu jeito, do fundo de um coração aflito. É que seu filho, pai de Julinha, dotado do sentimento de posse, sentiu-se no direito de assassinar a mãe da menina. Como não sentir-se culpada, então, por tamanho ato de violência, não restando espaço para nada além de pensamentos rumo a lugar algum? Dedos voltados à própria face, apontados à mãe. É a mãe a responsável. Quem mais seria? Quem mais teria coragem de gerar criatura vil tal qual? Não sou eu quem digo. É Maria, inconformada. Arrependida, talvez, por ter engravidado de homem casado, com filhos, e insistido que a criança nascesse a contragosto do pai de família.

Ao longo da narrativa, Sá Narinha (que é também Xis, Xispê, Maria, Maria Expedicionária) discorre sobre dezenas de personagens, mas a minha sensação foi de centenas. Como leitor, achei interessante contemplar uma diversidade de personalidades originais, pouco rendidos a estereótipos, mas senti que faltou construção. Por vezes, não por falta de atenção, um nome surgia na página e eu me perguntava quem era. Um ou outro memorável, mas a maioria esquecível, difícil de lembrar. Me perguntei numerosas vezes o porquê de estarem ali, em que agregavam. Creio que seja sim importante ambientar o espaço de que se fala, mas que seja ainda mais importante a presença da narradora enquanto agente que observa, mas também constrói. As vivências dos outros parecem sobrepor as de Sá Narinha. Tomam espaço demais. Se estendem sem qualquer necessidade. Queria saber mais dela, de Valdumira, sua irmã. Quando rememora a infância, inclusive, se trata de um ponto alto do livro. É quando o verde vira jardim, o azul vira riacho, o laranja vira calor e aquece. 

Gostei do final, mas Lilia poderia ter dado pistas, talvez? Dito mais de seus pratos, de seus afetos direcionados à cozinha, não só como ofício? Por mais que a comida seja um ponto frequente desde o início, passeando pela fome e pela fartura, é o que eu já trouxe aqui: Fez falta a narradora como alguém que, para além de analisar o mundo dos outros, constrói seu próprio mundo. 
Rodrigo Yudi Honda


"Para muita gente, felicidade é recolher os meninos de tardezinha, para banhar e esperar a janta. Nem todo mundo vai ser o artista que está na TV. Mas todo mundo devia poder escolher sua verdura. Comer seu peixinho, uma vez ou outra. Sua carne ou o que preferir. Ter sossego para ouvir música, apreciar seu esporte favorito. Tocar um instrumento no dia de folga." (pág.66)

Minha resenha não se restringe somente a críticas, tudo bem? Achei muito sofisticado que ela tenha trazido o tema da homofobia sem sequer ter mencionado a palavra. Acredito, até, que se tivesse explorado melhor a relação de d. Gerda com Betinho, traria um contraponto interessante a sua também relação materna com Julio Cesar, que é ou deveria ser, de certo modo, um ponto de atenção. Ponto que, infelizmente, se dissolve com a sequência de eventos em Fim-do-Mundo. Por que encaixar com tanta centralidade o velório de um outro morador da comunidade, tendo duas mortes extremamente significativas como pano de fundo? Mas minha resenha não se restringe somente a críticas, reiterando, portanto, parabenizo a autora por trechos profundamente transformadores, que correram o risco de caírem em clichês, na pornografia da dor, mas fizeram o exato caminho oposto: iluminaram o fator socioecônomico como determinante do que se come, do que se compra, do que se tem, do que se pulsa. 

Brilhantemente, dona de uma honestidade crua que só se lê através de obras como as de Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz, Lilia Guerra apela ao retrato da realidade. Uma imagem nem sempre vívida, quase nunca colorida por tons de romantização, mas que se sustenta pelo cotidiano, pelo que é passado e pelo que é possível, respectiva e objetivamente. 


"Acho que o seu bisavô, branco e muito, muito pobre nunca foi torturado, Betinho. Amarrado a um tronco. Surrado. Marcado com ferro quente. Nunca teve um dente arrancado à força nem recebeu sal e vinagre nas feridas abertas pelo chicote. O seu bisavô branco e pobre não foi separado da família. E, pelo que me consta, nunca trabalhou sem receber pagamento nem dormiu uma senzala. Um homem branco podia sim ser mal remunerado. Mas nunca escravizado. Podia sim ficar desempregado, sem ter uma colherada de farinha ou um gole dágua pra oferecer aos seus. Mas era livre. A seca e a miséria podiam alcançar um homem branco e pobre como o seu avô, que lamentaria a sua falta de sorte. Sem algemas nos pulsos ou grilhões no pescoço. Se a doença corroesse a carne de um homem branco, ele seria consumido livremente. A loucura podia tomar conta de um homem branco. Ele seria um homem louco. Mas livre. Ele sempre seria livre. Uma mulher branca podia ser muito, muito pobre. Nem por isso teria os filhos arrancados dos seus braços diretamente para as mãos dos compradores. Por miserável que fosse uma mulher branca, não seria obrigada a oferecer o leite do seu peito ao filho de outra, enquanto o seu próprio filho era privado de ser alimentado. E mesmo que fosse tão pobre a ponto de ter os seios secos, não seria impedida de segurar a sua cria junto ao corpo, procurando dar consolo pra ela. Uma pessoa branca e muito pobre podia trabalhar sem descanso, economizando moedas até se tornar próspera. E, se construísse um império, deixaria de ser pobre, tornando-se somente rica. Já um homem negro, mesmo que enriquecesse, continuaria sendo um homem negro. Ainda hoje, Betinho, se um negro, no auge do desespero, furta um pão, a notícia se espalha: 'Aquele negro é um ladrão!'. No entanto, se é um branco que rouba, o comentário se modifica: 'Aquele homem cometeu um delito'."
o instagram ainda faz sentido?

Pinterest

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 312.


No dia 3 de janeiro deste ano, desativei o meu perfil no Instagram. Voltei a utilizá-lo no fim de agosto. Decidi ficar offline porque me percebi adoecido pelo fluxo da rede, que hoje segue métricas puramente mercantilistas, visando lucro ao passo que vende nossa saúde mental, física. Sei que isso é óbvio para muitos de vocês, mas o óbvio também precisa ser dito.

No artigo "Plataformas de fazendas de cliques: condições de trabalho, materialidades e formas de organização", analisam-se as condições de trabalho, bem como as materialidades e disposições de pessoas pagas para curtir, comentar e seguir usuários presentes nas mídias. Dentre os apontamentos, está uma tríade conceitual que trata da relação entre a tecnologia e a vida social, colocando-a como incorporada, corporificada e cotidiana. Em outras palavras, tais termos dimensionam, respectivamente, que a tecnologia afeta e é experenciada pelo corpo; que as relações sociais são materializadas em estruturas tecnológicas; que a tecnologia tornou-se parte da rotina diária. Perceba que, nesse ponto, não existe uma dicotomia entre o mundo das telas e o mundo dos homens. Fizemos simbiose.

Se alguém te bloqueia, deixa de te seguir ou de interagir com as suas publicações, as ações refletem-se para além do digital, invariavelmente. Não se pode duvidar do poder de um ghosting, nem mesmo do efeito de um softblock. O que discorrer daquelas amizades que percebemos terem desandado, justamente pela não retribuição de curtidas e comentários? Das pessoas de quem sentimos vergonha alheia, por conta de algo que foi dito ou compartilhado por ela durante o prazo máximo de 24 horas? Que descobrimos serem bregas, por utilizarem determinado filtro ou legenda? Por serem oversharers, heavy posters. Dignas de silenciamento por não se preocuparem em performar, em entregar um comportamento palatável, simétrico e refinado, como produtos em prateleiras, não como seres cheios de subjetividades e, portanto, contradições? Se o engajamento não for conforme o esperado, a autoestima acompanha a frustração da expectativa de estar esteticamente agradável aos olhos do outro, por exemplo. Não é assim que funciona o jogo? E há quem diga que não passa de uma questão exclusiva do "tribunal de minúsculas causas", quando não. É genuíno sentir, ainda que não seja saudável, mas não só. É explicativo.

Pinterest

Quando pensei o blog, criei-o em muito para sanar o meu anseio de compartilhar coisas, das mais complexas às mais fúteis, tendo em vista o vácuo do Instagram. Ninguém acessava além de amigos próximos (que duvido muito terem lido ao menos um texto inteiro daqui), mas a sensação era de liberdade criativa, de autonomia do meu próprio tempo. Com a dissolução da nuvem de testemunhas, eu já não era refém do algoritmo e da necessidade quase fisiológica de agradar quem quer que fosse para ter o mínimo de atenção. Soava como falar com as paredes o que desse na telha, cantar no chuveiro sem plateia alguma, mas me lembrava uma época onde a exposição parecia mais fácil e menos calculada. Por vezes, me vi repetindo uma outra dinâmica, ansiando o dia em que fosse enfim consumido e admirado por tamanho bom gosto e nível de escrita que, narcisicamente, julgo avançado. Por vezes, quis reativar a plataforma do Zuckerberg, soltar o link por lá e desaparecer de volta, tendo como último rastro o movimento pós-moderno e espiritualizado (?) de retornar ao Blogger. Entregaria uma curadoria impecável seguida de um descanso de imagem muito apropriado para o momento que vivia, mas consegui romper com a validação. E rompi, não como um projeto de Buda desapegado da existência terrena, mas como um rato de laboratório fugitivo; como um adicto em recuperação; como um objeto de estudo, programado por bilionários, para manter girando a vapor de cérebro derretido a roda do capital.

Se pareço hiperbólico, é provável que o Instagram continue fazendo sentido para você. Sem problemas. Não detenho nenhuma verdade absoluta nem pretendo. Sugiro apenas que pensemos nessa rede cada vez menos social; onde, num primeiro momento, os storys tornaram-se uma alternativa ao medo da exposição do feed, e agora o close friends, uma alternativa ao medo da exposição dos storys. De onde vem tanta vergonha?

travesti belíssima

@bonde.br

Babi é uma das personagens do meu primeiro livro, "Superfície Abissal", que será lançado entre o fim deste ano e o início de 2026. Este trecho começou como um conto avulso que compreendi enquanto componente central da história iniciada.


Babi


Babi é míope. Sem seus óculos, não enxerga nada além de embaçamento, neblina e vapor. Por isso, acordou procurando-lhes embaixo do travesseiro, ao lado, que continua vazio na cama de casal há duas ou três noites. Parou de contar logo que João Junior passou pela porta. Saiu disparado feito bala perdida que sempre acerta o mesmo alvo. Tinha destino mais que definido: a casa da amante. Uma mulher. Cisgênero, é bom pontuar. Como João Junior, mas não como Babi, travesti belíssima. Após séculos de relação corrosiva, brigas infundadas por ciúmes reproduzidos de novela-meia-tigela, tendo de sustentar sozinha a casa entre a universidade e qualquer esquina do centro do Rio de Janeiro, exauriu-se. João Junior sabia de sua condição trabalhista logo que começaram a namorar. Não houve pedido de namoro, mas era um namoro. Moravam juntos, mas casamento é que não podia ser. Imagina se Babi perderia uma vida inteira soterrada naquele teto. Só se fosse burra, e de burra nunca teve nada. Primeiro, uma quitinete; depois, uma casinha pouco insalubre na zona oeste da cidade. Santa Cruz, o nome do bairro. Bonitinho, até. Distante, abandonado, quente, ensopado, traumatizado, porém, todavia, entretanto, bonitinho. Ao contrário de Babi, que sempre fora uma travesti belíssima. Assim que mudaram, João Jr. pagou o gás, a luz e a água. No mês seguinte, já começaram as dores. De cabeça, nas costas, nas pernas, nos braços, no peito, nos olhos, de barriga. Um açougue inteiro pra farmácia nenhuma dar conta de tanto remédio, e doutor de postinho nenhum fechar diagnóstico. De doença inventada em doença inventada, correram cinco envelhecidos anos. E quem acabou adoecendo de verdade foi Babi. Burnout, depressão, ansiedade, tudo junto. Quando descobriu a traição, ela reclamou em tom quase adormecido, zero vitalidade, e João, que não tinha ousado levantar a mão até então, criou coragem sob o medo de perder. Injustificável. Nem esperou que a namorada abrisse a boca, tentasse revidar. Enquanto Babi chorava processando o soco, o parasita calçou os tênis amarelados-quase-brancos de quem há muito não gastava sola pra distribuir currículos em calçadão, e foi. Não voltou. Tinha consciência de sua covardia.

Babi ajeitou as lentes tortas no nariz pontudo. Armação de acetato bagunça feito roupa de cama cem por cento algodão. Abriu a janela do quarto, olhou a rua: cachorros latindo em plena América Latina, buzina de padeiro tocando em som de desespero, pedreiro martelando parede, sol escaldante, carros efervescentes, nuvens pesadas no céu anunciando enchentes. Um dia comum em Santa Cruz. Bem-vinda de volta à realidade, Babi! Aproveite a segunda-feira! Ainda são 6h30 e você precisa acelerar, pois levantou atrasada e muito provavelmente perderá minutos na tentativa de esconder o arroxeado do rosto agora amassado. Sinto demais, mas como se lamentar sem testemunhas, se te abandonaram, se os amigos de antes também passaram por suas próprias portas noutros tempos? Foi logo que saiu do armário, lembra? Foi-se a metade. Depois, quando precisou trocar o vestuário, a outra metade te escapou. Até a gata branca de olhos azuis, Maria da Graça, fugiu. Essa daí tirou a sorte grande de não morrer envenenada com chumbinho por vizinho maldito. Veja pelo lado bom. Sei lá.

Que tristeza, mocinha! Mas pare de se lamentar, minha querida! Ninguém sente pena de você. Se olhe no espelho: preta como a madrugada; toneladas acima do peso; girafa de dois metros de altura; estudante pretérita-imperfeita de federal; maconheira de boca aberta; prostituta metida à besta; nascida de chocadeira, expulsa pela própria mãe aos 15; nem chegou a conhecer o irmão mais novo, que, através de um perfil falso nas redes sociais, descobriu chamar-se Anísio, nome de pessoa-antiquário. "Já nasceu com 42 anos", você pensou e se desculpou em sussurro instantâneo. Como se Deus fosse ouvir. É só uma criança. Respeito é bom e sua família gosta. No fim, você realmente deve ser filha do diabo. Então é esse o seu destino, Mau-Encarnado? Morrer na praia apesar de tão longe do mar? Meus pêsames! Que barra!

Existe uma fração no movimento dos ponteiros que os relógios não são capazes de capturar. É o rastro de resto. É a virada de chave. É o barulho de porta se fechando pra nunca mais se abrir. Despedida sem beijo na testa, na bochecha, sem adeus. Nem a saudade se atreve a se aproximar. A trava em questão carrega consigo essa sensação: das coisas que não têm início, mas têm fim. E daí? Ela é uma travesti belíssima! Sua beleza mora, sobretudo, no meio dos seios embebidos de silicone industrial, lá dentro onde fica o coração. Tudo que é interno tem pressa de eternidade, insiste em alcançar a luz, expande-se como dormideira por sobre a calçada úmida. 

Babi ainda não sabe, mas será feliz. Hoje apenas sorri. Mais tarde, quando dobrar a avenida que corta o cartão-postal, conhecerá o amor. Gargalhará de quão boba na companhia de si. Duvidará. Questionará os manequins silenciosos. Medo. Pânico. Vulnerabilidade. Entrega. Cem homens à vista, sem homens à vista. A quatro olhos com desvio de atenção, só não esquece a cabeça porque é colada no corpo. No entanto, na específica manhã, por ironia do desatino, episódio raro, não deixou suas molduras abaixo das penas de ganso parceladas em dez vezes sem juros. Enxergou em alta definição a vitrine espelhada da loja que lhe encarava de volta do lado de fora, bem nos olhos, e respondeu em bom som ao reflexo, mas não a ponto de entonar grito, pois exercia o livre-arbítrio, exceto a ousadia de ser publicamente ridícula: - Sou mesmo uma travesti belíssima!!!, pavoneou tímida.