Acho constrangedor quando alguém menciona a minha genitora, enfatizando que ela é uma ótima pessoa e merece ser perdoada. Eu não discordo disso, mas não sei se concordo. Todos nós somos bons e maus em escalas diferentes. Expulsar um filho de casa não me parece benevolência, a menos que meus olhos estivessem vedados pela romantização do amor materno e pela culpa cristã. Não estão. Não gosto de me colocar enquanto vítima, nem mesmo esse lugar me foi assegurado, mas onde eu estaria hoje, não fossem os meus amigos e conhecidos que, por empatia, estenderam mãos, braços, asas? Talvez na rua, muito provavelmente dentro de um caixão, porque é isso o que acontece na maioria dos casos de expulsão. A expectativa de vida diminui de acordo com a perspectiva daquilo que se vive.
Eu não vou perdoar a minha mãe, tenho certeza de que não, porque não aprendi a perdoar. Murro atrás de murro, tive que gritar, xingar, virar bicho. Que tipo de ser humano, afinal, precisa trocar de pele para impor algum respeito? Somos assim, tão selvagens? Quando penso no dia que deixei aquela casa, penso também que deixei-a tanto antes... saí pela porta da frente anos atrás, quando percebi não ser bem-vindo. Tudo em mim parecia deslocado, tudo em mim soava fora do lugar: meus sentimentos, minhas crenças, meus gestos. E foi extinguindo, cômodo por cômodo, que observei os destroços do que, até então, acreditava ser amor. Minha relação mais abusiva foi a materna. eu amei tanto a mulher que me gestou, mas já não a reconheço como mãe, somos dois estranhos que não dividem nada mais, nem um mesmo teto.
Eu poderia citar as cicatrizes dos últimos anos, eu poderia buscar jeito de fazê-la entender o quanto fui machucado nessa rede de mentiras seguidas de violências, mas seria como tentar explicar à uma cobra que seu veneno é, sim, capaz de matar. Me dói saber que, se eu tivesse me suicidado, até mesmo a minha partida, teria sido enredada num roteiro com ares de divindades que mais parecem demônios, onde a realidade está prostada ao que convém, não aos fatos.
A partir do momento em que me disse como sou, me tornei outro aos seus olhos. Um outro que conheço ainda menos do que você. Você nunca esteve preparada para lidar com a alteridade, você nunca esteve preparada para ser mãe. Observo outras mães com os meus olhos, os olhos que fechei durante uma existência inteira, olhos até hoje tão prematuros, olhos infantilmente marejados ao mínimo de emoção, e não te percebo. Você não se parece com elas, e eu não te culpo por isso. Me culpo bem mais. Na superfície, sempre esperei que sim. Almejei que pudéssemos ser melhores amigos ou ao menos melhores do que fomos.
O suicídio é a minha única certeza. Saber que, se tudo der errado e eu não conseguir suportar mais esse peso, posso simplesmente ir embora, me causa alívio, confesso. Me pergunto se não sou só eu, se o restante do globo se sente igual, mas não tem coragem de admitir em voz alta. Entretanto, o que me sobrou, senão a verdade? senão a possibilidade de ser honesto com o que sinto?
No fim do dia, você abriu uma de suas casas para que o meu irmão morasse com mulher, enteada e um agora filho recém-nascido. Pois é, eu tenho um sobrinho, e soube tê-lo apenas depois de nascido. Um sobrinho que anseio não desviar da normatividade impregnada nessa família, para que não adoeça. Que cresça falando feito homem, andando feito homem, comendo feito homem. Que cresça à sombra do pai e depois do avô, nunca do tio.
Se eu, um homem e uma criança, precisássemos de colo, todos os três, seríamos abrigados ou despejados? tenho a resposta antes mesmo de conceber a hipótese, mas indago, para que saibam de sua intolerância jamais admitida. Cada um de vocês é preconceituoso de formas que não noto aqui fora. Cada um de vocês fala em nome de um Deus que, diante do ódio, vira o rosto. Um Deus que me mantém de pé, não pelos joelhos dobrados de uma mãe, mas pela fé que tenho em mim, enquanto criação celeste que fui, sou e serei mesmo após o último respiro, queiram vocês ou não.
E se começo escrevendo pra ti, mãe, termino escrevendo pra todos. Não aponto um dedo, mostro as unhas e as sujeiras escondidas nelas, também. Exponho a nudez do meu corpo, exponho as veias que pulsam em meu coração. Para que nunca esqueçam do quanto estou consciente e do quanto sei. Suas ações ficarão impunes, assim como seus efeitos, mas a realidade não mais será alterada. Porque eu não permitirei que seja.
E se eu partir, me deixem descansar. Se eu partir, me deixem partir.
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