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São 03h25 e eu certamente deveria estar dormindo, mas num estalo de insônia resolvi terminar de ler “Não fossem as sílabas do sábado”, livro que escolhi como companheiro no longo trajeto que faço à minha dentista, mensalmente. Agora terei de separar outro, espero que algum tão bom quanto. 


Para começar, preciso dizer que estou completamente apaixonado pela escrita da autora. Mariana Salomão Carrara, muito brilhantemente, discorre sobre uma situação inusitada, por assim dizer. Imagine que uma pessoa, ao se atirar da janela de sua casa, mata junto de si mesma uma outra que transitava lá embaixo. Suícidio e homicídio, os dois entranhados feito uma só coisa. Miguel e André, dois homens que moravam no mesmo prédio, praticamente desconhecidos, de repente tão íntimos na calçada. Miguel era marido de Madalena; André era marido de Ana. As vizinhas também não se conheciam até tal episódio, mas a história se desenrola de uma forma meio curiosa, meio caricata, até, embora fidedigna, e de repente surge essa amizade improvável e cheia de ressentimentos. 

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As viúvas de início precisam alinhar o que sobrou e, querendo ou não, manter comunicação, diálogo. Madalena tenta, à sua maneira, oferecer suporte à Ana, que está cheia de dedos, apontamentos, julgamentos, paranoias. Ana é um poço de rancor, mágoas a fio, profundamente amargurada, mas dona de uma tristeza que só existe em função do amor. O amor que, ela bem sabe, possui a capacidade de construir casas, projetos, famílias. Toda uma arquitetura voltada ao quanto alguém pode sentir, ao quanto o afeto ganha forma através das coisas: de uma orquídea, de um quadro gigantesco e pesadíssimo, de um ultrassom mantido em segredo-surpresa, de uma marcação no livro que está sendo lido. Marcação feita com o desenho de um coração e um lembrete em forma de nome próprio, que não deixam de ser também uma mesma coisa entranhada. 


Na minha leitura, “Não fossem as sílabas do sábado” é um livro que utiliza a morte enquanto artifício para ilustrar a vida e as suas banalidades. Do ego à materialidade, da projeção de um trauma à nossa completa ausência de preparo em relação à falta. É impossível não se colocar no lugar de Ana, não se perguntar o que faríamos no lugar dela que, além de perder o pai da criança abruptamente órfã que nasceria meses mais tarde, tinha ainda que lidar com a volta à rotina e outras trocentas questões comuns à normalidade. O luto, afinal, é solitário. A demonstração de tristeza tem prazo de validade estipulado, se não azeda, se não os amigos se afastam, se não ninguém consegue suportar uma companhia assim tão deprimida. 


Mariana Carrara escreve irônica ou é Ana quem ironiza? Só vou saber quando ler alguma outra obra dela. Por enquanto, posso recomendar que leiam. Leiam e se percam, como eu, na dor e na maravilha que é estar vivo. Li as últimas páginas aos prantos, a propósito. Mas um choro de felicidade, é claro, por ter aprendido tanto com personagens femininas corajosas diante da dureza daquilo que nos é imprevisível.