6 de fevereiro de 2026
Essa do título, é a primeira literatura de ficção que concluo em 2026. E preciso dizer que não foi uma leitura fácil. Não por conta de sua história, mas pela escrita inventiva de Lilia Guerra. "Inventiva" é boa palavra para desenhar as muitas voltas que Sá Narinha dá até chegar ao seu destino final.
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| Rodrigo Yudi Honda |
"Os sonhos nem sempre cabem na gente." (pág. 74)
Em Fim-do-Mundo, comunidade imaginada pela autora, há Maria Expedicionária, uma empregada doméstica com histórias para contar. Histórias que contam de sua gente, de seu jeito, do fundo de um coração aflito. É que seu filho, pai de Julinha, dotado do sentimento de posse, sentiu-se no direito de assassinar a mãe da menina. Como não sentir-se culpada, então, por tamanho ato de violência, não restando espaço para nada além de pensamentos rumo a lugar algum? Dedos voltados à própria face, apontados à mãe. É a mãe a responsável. Quem mais seria? Quem mais teria coragem de gerar criatura vil tal qual? Não sou eu quem digo. É Maria, inconformada. Arrependida, talvez, por ter engravidado de homem casado, com filhos, e insistido que a criança nascesse a contragosto do pai de família.
Ao longo da narrativa, Sá Narinha (que é também Xis, Xispê, Maria, Maria Expedicionária) discorre sobre dezenas de personagens, mas a minha sensação foi de centenas. Como leitor, achei interessante contemplar uma diversidade de personalidades originais, pouco rendidos a estereótipos, mas senti que faltou construção. Por vezes, não por falta de atenção, um nome surgia na página e eu me perguntava quem era. Um ou outro memorável, mas a maioria esquecível, difícil de lembrar. Me perguntei numerosas vezes o porquê de estarem ali, em que agregavam. Creio que seja sim importante ambientar o espaço de que se fala, mas que seja ainda mais importante a presença da narradora enquanto agente que observa, mas também constrói. As vivências dos outros parecem sobrepor as de Sá Narinha. Tomam espaço demais. Se estendem sem qualquer necessidade. Queria saber mais dela, de Valdumira, sua irmã. Quando rememora a infância, inclusive, se trata de um ponto alto do livro. É quando o verde vira jardim, o azul vira riacho, o laranja vira calor e aquece.
Gostei do final, mas Lilia poderia ter dado pistas, talvez? Dito mais de seus pratos, de seus afetos direcionados à cozinha, não só como ofício? Por mais que a comida seja um ponto frequente desde o início, passeando pela fome e pela fartura, é o que eu já trouxe aqui: Fez falta a narradora como alguém que, para além de analisar o mundo dos outros, constrói seu próprio mundo.
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| Rodrigo Yudi Honda |
"Para muita gente, felicidade é recolher os meninos de tardezinha, para banhar e esperar a janta. Nem todo mundo vai ser o artista que está na TV. Mas todo mundo devia poder escolher sua verdura. Comer seu peixinho, uma vez ou outra. Sua carne ou o que preferir. Ter sossego para ouvir música, apreciar seu esporte favorito. Tocar um instrumento no dia de folga." (pág.66)
Minha resenha não se restringe somente a críticas, tudo bem? Achei muito sofisticado que ela tenha trazido o tema da homofobia sem sequer ter mencionado a palavra. Acredito, até, que se tivesse explorado melhor a relação de d. Gerda com Betinho, traria um contraponto interessante a sua também relação materna com Julio Cesar, que é ou deveria ser, de certo modo, um ponto de atenção. Ponto que, infelizmente, se dissolve com a sequência de eventos em Fim-do-Mundo. Por que encaixar com tanta centralidade o velório de um outro morador da comunidade, tendo duas mortes extremamente significativas como pano de fundo? Mas minha resenha não se restringe somente a críticas, reiterando, portanto, parabenizo a autora por trechos profundamente transformadores, que correram o risco de caírem em clichês, na pornografia da dor, mas fizeram o exato caminho oposto: iluminaram o fator socioecônomico como determinante do que se come, do que se compra, do que se tem, do que se pulsa.
Brilhantemente, dona de uma honestidade crua que só se lê através de obras como as de Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz, Lilia Guerra apela ao retrato da realidade. Uma imagem nem sempre vívida, quase nunca colorida por tons de romantização, mas que se sustenta pelo cotidiano, pelo que é passado e pelo que é possível, respectiva e objetivamente.
"Acho que o seu bisavô, branco e muito, muito pobre nunca foi torturado, Betinho. Amarrado a um tronco. Surrado. Marcado com ferro quente. Nunca teve um dente arrancado à força nem recebeu sal e vinagre nas feridas abertas pelo chicote. O seu bisavô branco e pobre não foi separado da família. E, pelo que me consta, nunca trabalhou sem receber pagamento nem dormiu uma senzala. Um homem branco podia sim ser mal remunerado. Mas nunca escravizado. Podia sim ficar desempregado, sem ter uma colherada de farinha ou um gole dágua pra oferecer aos seus. Mas era livre. A seca e a miséria podiam alcançar um homem branco e pobre como o seu avô, que lamentaria a sua falta de sorte. Sem algemas nos pulsos ou grilhões no pescoço. Se a doença corroesse a carne de um homem branco, ele seria consumido livremente. A loucura podia tomar conta de um homem branco. Ele seria um homem louco. Mas livre. Ele sempre seria livre. Uma mulher branca podia ser muito, muito pobre. Nem por isso teria os filhos arrancados dos seus braços diretamente para as mãos dos compradores. Por miserável que fosse uma mulher branca, não seria obrigada a oferecer o leite do seu peito ao filho de outra, enquanto o seu próprio filho era privado de ser alimentado. E mesmo que fosse tão pobre a ponto de ter os seios secos, não seria impedida de segurar a sua cria junto ao corpo, procurando dar consolo pra ela. Uma pessoa branca e muito pobre podia trabalhar sem descanso, economizando moedas até se tornar próspera. E, se construísse um império, deixaria de ser pobre, tornando-se somente rica. Já um homem negro, mesmo que enriquecesse, continuaria sendo um homem negro. Ainda hoje, Betinho, se um negro, no auge do desespero, furta um pão, a notícia se espalha: 'Aquele negro é um ladrão!'. No entanto, se é um branco que rouba, o comentário se modifica: 'Aquele homem cometeu um delito'."



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