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Babi é uma das personagens do meu primeiro livro, "Superfície Abissal", que será lançado entre o fim deste ano e o início de 2026. Este trecho começou como um conto avulso que compreendi enquanto componente central da história iniciada.


Babi


Babi é míope. Sem seus óculos, não enxerga nada além de embaçamento, neblina e vapor. Por isso, acordou procurando-lhes embaixo do travesseiro, ao lado, que continua vazio na cama de casal há duas ou três noites. Parou de contar logo que João Junior passou pela porta. Saiu disparado feito bala perdida que sempre acerta o mesmo alvo. Tinha destino mais que definido: a casa da amante. Uma mulher. Cisgênero, é bom pontuar. Como João Junior, mas não como Babi, travesti belíssima. Após séculos de relação corrosiva, brigas infundadas por ciúmes reproduzidos de novela-meia-tigela, tendo de sustentar sozinha a casa entre a universidade e qualquer esquina do centro do Rio de Janeiro, exauriu-se. João Junior sabia de sua condição trabalhista logo que começaram a namorar. Não houve pedido de namoro, mas era um namoro. Moravam juntos, mas casamento é que não podia ser. Imagina se Babi perderia uma vida inteira soterrada naquele teto. Só se fosse burra, e de burra nunca teve nada. Primeiro, uma quitinete; depois, uma casinha pouco insalubre na zona oeste da cidade. Santa Cruz, o nome do bairro. Bonitinho, até. Distante, abandonado, quente, ensopado, traumatizado, porém, todavia, entretanto, bonitinho. Ao contrário de Babi, que sempre fora uma travesti belíssima. Assim que mudaram, João Jr. pagou o gás, a luz e a água. No mês seguinte, já começaram as dores. De cabeça, nas costas, nas pernas, nos braços, no peito, nos olhos, de barriga. Um açougue inteiro pra farmácia nenhuma dar conta de tanto remédio, e doutor de postinho nenhum fechar diagnóstico. De doença inventada em doença inventada, correram cinco envelhecidos anos. E quem acabou adoecendo de verdade foi Babi. Burnout, depressão, ansiedade, tudo junto. Quando descobriu a traição, ela reclamou em tom quase adormecido, zero vitalidade, e João, que não tinha ousado levantar a mão até então, criou coragem sob o medo de perder. Injustificável. Nem esperou que a namorada abrisse a boca, tentasse revidar. Enquanto Babi chorava processando o soco, o parasita calçou os tênis amarelados-quase-brancos de quem há muito não gastava sola pra distribuir currículos em calçadão, e foi. Não voltou. Tinha consciência de sua covardia.

Babi ajeitou as lentes tortas no nariz pontudo. Armação de acetato bagunça feito roupa de cama cem por cento algodão. Abriu a janela do quarto, olhou a rua: cachorros latindo em plena América Latina, buzina de padeiro tocando em som de desespero, pedreiro martelando parede, sol escaldante, carros efervescentes, nuvens pesadas no céu anunciando enchentes. Um dia comum em Santa Cruz. Bem-vinda de volta à realidade, Babi! Aproveite a segunda-feira! Ainda são 6h30 e você precisa acelerar, pois levantou atrasada e muito provavelmente perderá minutos na tentativa de esconder o arroxeado do rosto agora amassado. Sinto demais, mas como se lamentar sem testemunhas, se te abandonaram, se os amigos de antes também passaram por suas próprias portas noutros tempos? Foi logo que saiu do armário, lembra? Foi-se a metade. Depois, quando precisou trocar o vestuário, a outra metade te escapou. Até a gata branca de olhos azuis, Maria da Graça, fugiu. Essa daí tirou a sorte grande de não morrer envenenada com chumbinho por vizinho maldito. Veja pelo lado bom. Sei lá.

Que tristeza, mocinha! Mas pare de se lamentar, minha querida! Ninguém sente pena de você. Se olhe no espelho: preta como a madrugada; toneladas acima do peso; girafa de dois metros de altura; estudante pretérita-imperfeita de federal; maconheira de boca aberta; prostituta metida à besta; nascida de chocadeira, expulsa pela própria mãe aos 15; nem chegou a conhecer o irmão mais novo, que, através de um perfil falso nas redes sociais, descobriu chamar-se Anísio, nome de pessoa-antiquário. "Já nasceu com 42 anos", você pensou e se desculpou em sussurro instantâneo. Como se Deus fosse ouvir. É só uma criança. Respeito é bom e sua família gosta. No fim, você realmente deve ser filha do diabo. Então é esse o seu destino, Mau-Encarnado? Morrer na praia apesar de tão longe do mar? Meus pêsames! Que barra!

Existe uma fração no movimento dos ponteiros que os relógios não são capazes de capturar. É o rastro de resto. É a virada de chave. É o barulho de porta se fechando pra nunca mais se abrir. Despedida sem beijo na testa, na bochecha, sem adeus. Nem a saudade se atreve a se aproximar. A trava em questão carrega consigo essa sensação: das coisas que não têm início, mas têm fim. E daí? Ela é uma travesti belíssima! Sua beleza mora, sobretudo, no meio dos seios embebidos de silicone industrial, lá dentro onde fica o coração. Tudo que é interno tem pressa de eternidade, insiste em alcançar a luz, expande-se como dormideira por sobre a calçada úmida. 

Babi ainda não sabe, mas será feliz. Hoje apenas sorri. Mais tarde, quando dobrar a avenida que corta o cartão-postal, conhecerá o amor. Gargalhará de quão boba na companhia de si. Duvidará. Questionará os manequins silenciosos. Medo. Pânico. Vulnerabilidade. Entrega. Cem homens à vista, sem homens à vista. A quatro olhos com desvio de atenção, só não esquece a cabeça porque é colada no corpo. No entanto, na específica manhã, por ironia do desatino, episódio raro, não deixou suas molduras abaixo das penas de ganso parceladas em dez vezes sem juros. Enxergou em alta definição a vitrine espelhada da loja que lhe encarava de volta do lado de fora, bem nos olhos, e respondeu em bom som ao reflexo, mas não a ponto de entonar grito, pois exercia o livre-arbítrio, exceto a ousadia de ser publicamente ridícula: - Sou mesmo uma travesti belíssima!!!, pavoneou tímida.