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POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 312.


No dia 3 de janeiro deste ano, desativei o meu perfil no Instagram. Voltei a utilizá-lo no fim de agosto. Decidi ficar offline porque me percebi adoecido pelo fluxo da rede, que hoje segue métricas puramente mercantilistas, visando lucro ao passo que vende nossa saúde mental, física. Sei que isso é óbvio para muitos de vocês, mas o óbvio também precisa ser dito.

No artigo "Plataformas de fazendas de cliques: condições de trabalho, materialidades e formas de organização", analisam-se as condições de trabalho, bem como as materialidades e disposições de pessoas pagas para curtir, comentar e seguir usuários presentes nas mídias. Dentre os apontamentos, está uma tríade conceitual que trata da relação entre a tecnologia e a vida social, colocando-a como incorporada, corporificada e cotidiana. Em outras palavras, tais termos dimensionam, respectivamente, que a tecnologia afeta e é experenciada pelo corpo; que as relações sociais são materializadas em estruturas tecnológicas; que a tecnologia tornou-se parte da rotina diária. Perceba que, nesse ponto, não existe uma dicotomia entre o mundo das telas e o mundo dos homens. Fizemos simbiose.

Se alguém te bloqueia, deixa de te seguir ou de interagir com as suas publicações, as ações refletem-se para além do digital, invariavelmente. Não se pode duvidar do poder de um ghosting, nem mesmo do efeito de um softblock. O que discorrer daquelas amizades que percebemos terem desandado, justamente pela não retribuição de curtidas e comentários? Das pessoas de quem sentimos vergonha alheia, por conta de algo que foi dito ou compartilhado por ela durante o prazo máximo de 24 horas? Que descobrimos serem bregas, por utilizarem determinado filtro ou legenda? Por serem oversharers, heavy posters. Dignas de silenciamento por não se preocuparem em performar, em entregar um comportamento palatável, simétrico e refinado, como produtos em prateleiras, não como seres cheios de subjetividades e, portanto, contradições? Se o engajamento não for conforme o esperado, a autoestima acompanha a frustração da expectativa de estar esteticamente agradável aos olhos do outro, por exemplo. Não é assim que funciona o jogo? E há quem diga que não passa de uma questão exclusiva do "tribunal de minúsculas causas", quando não. É genuíno sentir, ainda que não seja saudável, mas não só. É explicativo.

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Quando pensei o blog, criei-o em muito para sanar o meu anseio de compartilhar coisas, das mais complexas às mais fúteis, tendo em vista o vácuo do Instagram. Ninguém acessava além de amigos próximos (que duvido muito terem lido ao menos um texto inteiro daqui), mas a sensação era de liberdade criativa, de autonomia do meu próprio tempo. Com a dissolução da nuvem de testemunhas, eu já não era refém do algoritmo e da necessidade quase fisiológica de agradar quem quer que fosse para ter o mínimo de atenção. Soava como falar com as paredes o que desse na telha, cantar no chuveiro sem plateia alguma, mas me lembrava uma época onde a exposição parecia mais fácil e menos calculada. Por vezes, me vi repetindo uma outra dinâmica, ansiando o dia em que fosse enfim consumido e admirado por tamanho bom gosto e nível de escrita que, narcisicamente, julgo avançado. Por vezes, quis reativar a plataforma do Zuckerberg, soltar o link por lá e desaparecer de volta, tendo como último rastro o movimento pós-moderno e espiritualizado (?) de retornar ao Blogger. Entregaria uma curadoria impecável seguida de um descanso de imagem muito apropriado para o momento que vivia, mas consegui romper com a validação. E rompi, não como um projeto de Buda desapegado da existência terrena, mas como um rato de laboratório fugitivo; como um adicto em recuperação; como um objeto de estudo, programado por bilionários, para manter girando a vapor de cérebro derretido a roda do capital.

Se pareço hiperbólico, é provável que o Instagram continue fazendo sentido para você. Sem problemas. Não detenho nenhuma verdade absoluta nem pretendo. Sugiro apenas que pensemos nessa rede cada vez menos social; onde, num primeiro momento, os storys tornaram-se uma alternativa ao medo da exposição do feed, e agora o close friends, uma alternativa ao medo da exposição dos storys. De onde vem tanta vergonha?