"Já andei por vias tortas / me bateram portas / já penei demais / tenho um maço de receios / não durmo direito / onde está meu lar?"

Em Last Dance, Jaloo canta sobre um sentimento muito presente em pessoas LGBTQIAPN+: o deslocamento. Sou suspeito para falar da importância de Jade no que toca à música brasileira, então serei direto e reto: o disco #1 mudou a forma de se produzir álbuns Brasil adentro, tanto estética quanto conceitualmente. Poucos contemporâneos a ela têm tamanha propriedade lírica — e digo isso sobretudo porque tive a sorte de atravessar o momento mais difícil da minha vida logo após o lançamento de MAU, sua terceira produção de estúdio enquanto artista solo.

Depois de ser expulso de casa por conta da minha identidade dissidente, percebi como servia de alívio ouvir os trechos “navegando em solidão / nessas ruas sem memória / eu vou / praticar desatenção”, acompanhado daquela sensação primária de fã de que tal letra certamente foi escrita e endereçada a mim. Não foi, é claro, mas não posso deixar de pensar que essa identificação reflete a habilidade de Jaloo em captar atmosferas a partir de vivências ou mesmo de observações. Jaloo é profunda sem fazer esforço. Doida que só ela, parece estar sempre vivendo uma viagem psicoanalítica, “dando um time desse mundo / valorizando o que importa”, como compartilha na faixa Dom, do ft (pt. 1). Pensa o outro e obriga o outro a se pensar.

"me dê intimidade / pra deitar e sonhar no teu chão"

"vou avisar aos cachorros da rua / que a minha ferida crua é melhor não lamber"

" a verdade é que a cidade vai me matar" 

Tão didáticas quanto confessionais, suas letras falam por si mesmas. Denunciam o não lugar no qual Jaloo por vezes se vê e o possível preço de habitar o próprio corpo.

Desde outubro de 2015, o trabalho da paraense continua colocando pulga atrás da minha orelha, sendo a mosca na minha sopa, a minhoca na minha cabeça e o caroço nesse meu angu. Incontestavelmente provocativa. Eu gosto da subversão. Gosto da ideia de ser desafiado, de ler entrelinhas, de pontuar como reajo frente à instabilidade, desenvolver teoria antropológica grudado ao espelho, encarando o abalo sísmico de existir sendo tudo o que sou. Sem masoquismo, sem romantização. Ninguém escapa de segurar as lágrimas em transporte público quando toca aquela faixa nos fones. Quem nunca chorou no banho, quem nunca engoliu o choro, que atire a primeira pedra. 

A música carrega consigo o poder de expurgar, de trazer à flor da pele. 

Num desses plays, enquanto voltava de ônibus para o apartamento onde moro hoje, a pergunta voltou junto: onde está meu lar? 

Bem, 1 ano e 5 meses se passaram e continuo sem resposta. Ainda sinto falta de tanto. É estranho pensar que, em algum momento da vida adulta — por imposição ou por livre e espontânea vontade — os lugares tidos como seguros se dissipam um a um. E talvez a nossa missão mais difícil, dada certa idade, seja construir espaços de acolhimento — nem sempre inabaláveis, mas menos frágeis —, de modo que possamos pertencer.

Lendo o capítulo 4 de Tudo Sobre o Amor, de bell hooks, encontrei um trecho bastante potente:

“Criar felicidade doméstica é especialmente útil para pessoas que moram sozinhas e estão aprendendo a amar a si mesmas. Quando nos esforçamos intencionalmente para tornar a nossa casa um lugar onde estamos prontos para dar e receber amor, cada objeto que colocamos ali aumenta o nosso bem-estar. Eu crio temas para minhas casas. Meu apartamento na cidade tem como tema ‘lugar de encontrar o amor’. Como uma pessoa de cidade pequena que se mudou para a cidade grande, achei que precisava que o meu ambiente realmente se parecesse com um santuário. Como meu apartamento de um quarto é muito menor que os lugares onde me habituei a morar, decidi levar apenas objetos que eu realmente amava — as coisas sem as quais eu sentia que não poderia ficar. É impressionante a quantidade de coisas das quais podemos nos desapegar. Minha casa no interior tem como tema o deserto. Eu a chamo de ‘soledad hermosa’, a beleza de estar só. Vou para lá para ficar calma e sossegada, para ter a experiência do divino, para me renovar.”

Percebam que esse post é um desabafo — e também uma oportunidade de olhar para trás com lentes menos dolorosas. O que vale, o amanhã, está à frente.