estudos sobre memória, travessia e reexistência na sonoridade afrodiaspórica

Achille Mbembe, em Crítica da Razão Negra, relembra o porquê de ter se tornado referência acadêmica quanto ao estudo pós-colonial. Ele, que lecionou em universidades estadunidenses e sul-africanas, sofisticada e eruditamente pensa questões fundamentais da História e da Política africanas. Com teorias e temas filosófico-políticos, um de seus principais propósitos é investigar as relações humanas, coletivamente. Na obra em questão, Mbembe propõe que a diferença racial seja refletida a partir da experiência preta, interpelando a Verdade do Cristianismo e do Capitalismo, pilares da Modernidade. Sendo assim, o autor compreende que é necessário indagar a História, considerando que esta foi narrada pela colonização, mesmo antes da definição de negro — categoria social confundida com os conceitos de escravo e de raça, como ele mesmo explica.

Contemporaneamente, o substantivo “negro” corresponde, enquanto construção social, a uma imagem subalterna e a uma humanidade castrada. Quando Mbembe revisita a fase mercantilista do Capitalismo, a percepção econômica é exposta como fator determinante para que o sujeito, agora reduzido à condição de coisa, tenha sido transformado em mercadoria, tendo em vista que esse período enredou justificativas responsáveis pela legitimação do sistema escravagista. Assim, Mbembe chega à conclusão de que a terminologia “negra” é própria da exclusão e nunca esteve dissociada da escravatura. Em outras palavras, o conceito de “negro” e o conceito de “escravo” são difundidos.

O racismo serve ao desígnio de negar a humanidade do outro, a fim de materializar argumentos sólidos o bastante para oprimi-lo, explorá-lo — até mesmo matá-lo —, podendo essa morte ser física, política ou simbólica. É possível dizer isso, tanto quanto é possível constatar que a raça não é determinada pela Biologia. O conceito de raça, é preciso dizer, pratica aquilo que Mbembe chamou de alterocídio, traduzido em “saber o outro”. Aqui, o outro não ocupa o lugar de semelhante, mas de objeto profundamente ameaçador, do qual é preciso proteger-se, desfazer-se; se não puder ser controlado, inclusive, ele deve ser destruído. Sueli Carneiro discorre, em Dispositivo de racialidade: A construção do outro como não ser como fundamento do ser, sobre como esse mecanismo de poder produz e hierarquiza diferenças, sendo estruturado por instituições, discursos e práticas que naturalizam a desumanização.

Mbembe, camaronês, tem consciência de que o continente africano foi arbitrariamente retratado como um “não-lugar”. Em Hegel, por exemplo, a África é descrita como não sendo habitada pela História nem pela Razão. O filósofo insistiu na afirmação de que ali predominavam a barbárie e a selvageria. Colocado como signo de atraso, de ausência de civilização, o continente foi ocultado, a fim de que seus conhecimentos, invenções e descobertas não se opusessem à perspectiva colonial. Por conseguinte, o homem originário de África foi transformado em homem-objeto, homem-mercadoria e homem-moeda, nas palavras de Achille.


Se, para Mbembe, a justiça, a restituição e a reparação são os únicos meios possíveis de alcançarmos um futuro livre do peso da raça, o ideário escravagista precisa ser superado. Em Pensar Nagô, Muniz Sodré retoma a importância de ir além, sobretudo das dores provocadas por esse processo. Por mais violento que tenha sido, é necessário que o povo preto passe a ser lido através de suas riquezas, contrapondo o fato de que a maioria das conversas acerca da herança africana se dá em torno da escravização racial ocorrida.

É certo que reis e rainhas de nações africanas atravessaram o Oceano Atlântico. De lá, veio realeza, elite intelectual; pessoas munidas de cargos e ofícios em seus países de origem. Aqui, frente à desumanização, os escravizados mantiveram a crença em sua existência através de práticas religiosas. As noções cosmológicas restauraram a conexão com os orixás e os ancestrais celestiais, independentemente do território no qual encontravam-se fisicamente, porque a relação que se estabelece é com a Natureza — através de ritos e rituais específicos, através do contato entre o plano espiritual (Orun) e o plano físico (Aiê), que é condição para a reexistência conjunta.

Em Malidoma Somé, a música se faz necessária para que a coletividade acesse o mundo-além, havendo nessa linguagem uma tecnologia essencial para que a vida seja ritualizada, promovendo o equilíbrio com o mundo natural. Somé identifica os três principais alicerces da cultura Dagara (da qual faz parte): Natureza, Comunidade e Ritual, enfatizando que tal interação implica no efeito curativo dos indivíduos — coletivamente e na ordem do cosmos —, costurando em prática ritualística o elo entre a comunidade e a natureza, entre o visível e o invisível.

São muitos os canais que conectam pessoas negras à sua ancestralidade. O mar está entre eles. Posso me concentrar no Oceano Atlântico — que, inundado por uma pluralidade de interpretações, parece traduzir a complexidade que é a nossa subjetividade. Viagem; passagem; mudança; saudade. Quantas palavras cabem no azul do trânsito forçado, na ponte entre o lar e o desconhecido? Questão que Paul Gilroy responde em O Atlântico Negro, com reflexões acerca do que entende como “continente líquido”, uma rede de trocas formada pela diáspora africana que sobrepõe delimitações geográficas. Utilizando sua percepção do que seria uma cultura transnacional, onde a música preta (blues, jazz, reggae, hip-hop) é arquivo vivo da memória da escravidão e, portanto, veículo de luta política, me vejo obrigado a citar como a música produzida por artistas negros brasileiros parece encontrar no mar fontes inesgotáveis de inspiração — principalmente em territórios predominantemente negros, como a Bahia.

"Transatlanticidade Conceito cunhado na elaboração do filme Orí (1989) de Raquel Gerber, divulgando a tese de Beatriz Nascimento de que com todo descontínuo há um contínuo histórico memorável na história entre povos dominadores e subordinados, que eleva sempre a dignidade e a singularidade humanas e vê ecologicamente o mar Atlântico como um vetor, um meio (mídia) entre os povos de Europa, de África e de América. Somente ele como território livre e físico tornou possível os encontros e os desencontros de culturas tão díspares; de genocídios como também de transformações genéticas. Transportou e alimentou povos daqui para lá e de lá para cá. Mesmo após novos meios de transportes e de comunicação, talvez por isso mesmo ele, de elemento desagregador, tornou os homens gregários, impondo sua música e seu poder de comunicação virtual. Seu sentido oceânico (infinito, sem limites) fez desses povos culturas diferenciadas e, até certo ponto, harmônicas. O Atlântico, considerado pelos povos afro-brasileiros como deusa-mãe (Yemanjá–Oxum alimenta a existencialidade brasileira); é a ele, interventor de nossa felicidade, que nós nos rendemos. Pode ele através de seu espelho curar-nos feridas tão profundas e abertas ao longo de toda esta história."

NASCIMENTO, Maria Beatriz. Culturas em diálogo. In: RATTS, Alex (Org.). O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. São Paulo: Ubu Editora, 2022. p. 164-166.

Em Vividir, presente no álbum Dolores Dala Guardião do Alívio, Rico Dalasam canta: “Bússola, lamento, me distrai / No mar / E a gente vive de / Partir sem despedir / Entre um Atlântico e outro / Um cântico e outro / Com tanta saudade pra admitir”, como quem interpreta sua existência sob rompimentos bruscos de conexões afetivas, consciente de que as experiências sociais de pessoas negras quase sempre são pautadas pela solidão e pelo desamparo — como se habituadas a rupturas abruptas, sem possibilidade de desfecho.

Ao cantar: “Volto pro meu mar / Nado fundo pra me lembrar”, Xênia França desenha a recuperação da memória como fundamental à sua reconexão consigo. Já Luedji Luna, artista por trás dos álbuns Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água e Um Mar Pra Cada Um, passeia entre a superfície e o abissal, debruçando-se em investigações sobre o amor que não faz sozinha: acompanhada por vozes e escritos de Conceição Evaristo e Beatriz Nascimento, a soteropolitana mergulha em experiências próprias da condição de mulher negra — essencialmente singular e especialmente plural. “Qualquer gota de amor afoga / Faço um oceano dentro”, afinal.

SZA, em território estadunidense, verbaliza sua necessidade de ser humanizada através da faixa Ghost in the Machine, na qual solicita ser guiada até a arca (embarcação símbolo da tradição cristã, representando uma forma de salvação e de recomeço da humanidade), o que cria contraste imediato com o navio negreiro — descrito por Gilroy como símbolo de horror, mas também de movimento e reconexão. Em SOS, seu segundo álbum de estúdio, a artista não poupa detalhes de uma afetividade atravessada pela solidão, pela objetificação, pela vergonha, pelo abandono, pela raiva e pela perda. No entanto, ao fim do registro, admite a si mesma — e por si mesma — que é preciso superar a dor, em prol do amor-próprio. Ela finaliza Open Arms com um ponto de Oxum — orixá que, tal qual Iemanjá, é o rio que corre em direção ao mar —, fazendo alusão à sua espiritualidade, à Deusa do amor e senhora das emoções; o que, não só ambienta a capa, mas amarra o conceito da produção, lírica e melodicamente.

É Kelela quem, ao gravar o último videoclipe do álbum Raven em praia do Rio de Janeiro, com seu corpo direcionado ao mar, ao passo que repete Far Away (Longe Demais) inúmeras vezes, faz do mar um canal de comunicação que relaciona e atrela à sua existência enquanto afro-americana à existência afro-brasileira, rompendo distâncias através dos movimentos marítimos. Não coincidentemente, há um diálogo entre a capa do Raven e do Deluxe de Luedji.