Canções de Apartamento, do Cícero; Pitanga, da Mallu Magalhães, Efêmera, da Tulipa Ruiz... tantos exemplos que trouxeram respiro à nossa música. Pode-se dizer que havia algo de diferente acontecendo na cena ali, por volta de 2010 em diante. Os álbuns voltaram a despertar interesse. Quem não lembra do vídeo viral de “Oração”, de “A Banda Mais Bonita da Cidade”, que fez o maior sucesso nas redes sociais — talvez em decorrência do bem filmado plano-sequência, talvez devido tão somente à melodia, talvez por conta da áurea intimista, vai saber? Como esquecer do fenômeno de nicho que foi a "Banda do Mar"? Não entendo de métricas como gostaria, mas sei, porque vivi, que eu e outras pessoas da minha idade começamos a prestar atenção, não apenas nos clássicos, mas no que essa gente jovem tinha para dizer.
Se agora a juventude se pretende conservadora, tendo “Café com Deus Pai”, agronejo e jingles do TikTok como principais aliados, nós tínhamos mecanismos mais sofisticados de compreender o mundo, por assim dizer. Éramos uma galera que se pretendia pensante, voltada à sensibilidade, ao poder das palavras. Aquele momento foi primordial, acredito, para a politização da minha geração. A geração que, por brincadeira, apelidamos de #ForaTemer. Me chamem de cirandeiro, não tem problema, mas não é de se refletir que as nossas movimentações políticas estiveram recorrentemente alinhadas à escrita e à canção? "Ninguém solta a mão de ninguém" não passa longe de "Ninguém vai poder querer nos dizer como amar" (Trecho de "Flutua", de Johnny Hooker e Liniker), vai. O tal do "Cultura Livre por Bala Desejo" virou meme, mas não consigo deixar de pensar nos lugares aos quais essas viagens nos levam. Certamente a cenários mais agradáveis que os oferecidos pelo reacionarismo.
No Estadão, uma notícia cujo título é: "Fãs de Trump na geração Z acham que ser conservador é sexy e ter consciência social é chato". Percebem? De um lado, Pistache, Labubu, Morango do Amor, Coca-Cola Zero, Virgínia Fonseca, Nikolas Ferreira, Família Bolsonaro e Bobbie Goods. Do outro, três vezes "sim": sim, sim, sim. Eu fico com a segunda opção.
Dessa turma obviamente surgiram incontáveis artistas. Nomes que não estão interessados em militar através de sua arte, mas que nem por isso deixam de compreender a arte como dispositivo político que sempre foi. O autor Jeferson Tenório (O Avesso da Pele) comentou, em recente entrevista ao Sem Censura, que o letramento do brasileiro “não vem com os livros, vem com a música”, inclusive. É a partir da música que nós mobilizamos as coisas. Só pensarmos a relação da tropicália com a ditadura militar. E, se a música deixa de cumprir sua função nessa equação, os efeitos tendem mesmo à alienação. Por isso a importância de obras que contrapõem produções de ordem genérica, descoladas de subjetividades fundamentais à leitura de si e do outro.
Eu poderia falar sobre cada um dos álbuns abaixo, mas não vou, por pura preguiça. Esse dever de casa é de vocês. Nem vai causar cansaço, porque alguns já são conhecidíssimos. Mas adianto que, se considero clássicos, é porque são exemplares, modelares. Não seguem exatamente fórmulas prontas e propõem narrativas atmosféricas. Se tirar e pôr numa playlist qualquer, até dá certo, mas funciona melhor dentro do conceito disposto, que vai desde as capas até as texturas das histórias contadas. Nascidos atemporais.
De Primeira / Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua / Violeta / Sinto Muito / #1 / Sintoma / Letrux em Noite de Climão / Pajubá / AFIM / OPROPRIO / Rito de Passá / Um Corpo no Mundo / Japanese Food / Indigo Borboleta Anil / Ritual
Façam bom proveito!



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