Oi, gente! Estou sumido, já sei, mas resolvi aparecer para compartilhar sobre um tópico repetitivo aqui no blog: música. Quem me conhece sabe o tanto que eu amo a nova MPB, e isso vem sendo carregado comigo há bastante tempo, desde artistas como Clarice Falcão, Tiê, Marcelo Jeneci, entre outros. Eles investiram na própria poética e identidade, mobilizando projetos futuros através de discos como "Vista Pro Mar"; "Pearl"; "Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!". Longe de serem datados, álbuns tão coesos que, ainda hoje, soam como clássicos instantâneos. Aviso de antemão que um nome ou outro certamente ficará de fora da seleção, pois tenho memória curta, mas o intuito é revisitar e capturar trabalhos que surgiram após esse primeiro momento.

Canções de Apartamento, do Cícero; Pitanga, da Mallu Magalhães, Efêmera, da Tulipa Ruiz... tantos exemplos que trouxeram respiro à nossa música. Pode-se dizer que havia algo de diferente acontecendo na cena ali, por volta de 2010 em diante. Os álbuns voltaram a despertar interesse. Quem não lembra do vídeo viral de “Oração”, de “A Banda Mais Bonita da Cidade”, que fez o maior sucesso nas redes sociais — talvez em decorrência do bem filmado plano-sequência, talvez devido tão somente à melodia, talvez por conta da áurea intimista, vai saber? Como esquecer do fenômeno de nicho que foi a "Banda do Mar"? Não entendo de métricas como gostaria, mas sei, porque vivi, que eu e outras pessoas da minha idade começamos a prestar atenção, não apenas nos clássicos, mas no que essa gente jovem tinha para dizer. 

Se agora a juventude se pretende conservadora, tendo “Café com Deus Pai”, agronejo e jingles do TikTok como principais aliados, nós tínhamos mecanismos mais sofisticados de compreender o mundo, por assim dizer. Éramos uma galera que se pretendia pensante, voltada à sensibilidade, ao poder das palavras. Aquele momento foi primordial, acredito, para a politização da minha geração. A geração que, por brincadeira, apelidamos de #ForaTemer. Me chamem de cirandeiro, não tem problema, mas não é de se refletir que as nossas movimentações políticas estiveram recorrentemente alinhadas à escrita e à canção? "Ninguém solta a mão de ninguém" não passa longe de "Ninguém vai poder querer nos dizer como amar" (Trecho de "Flutua", de Johnny Hooker e Liniker), vai. O tal do "Cultura Livre por Bala Desejo" virou meme, mas não consigo deixar de pensar nos lugares aos quais essas viagens nos levam. Certamente a cenários mais agradáveis que os oferecidos pelo reacionarismo.

No Estadão, uma notícia cujo título é: "Fãs de Trump na geração Z acham que ser conservador é sexy e ter consciência social é chato". Percebem? De um lado, Pistache, Labubu, Morango do Amor, Coca-Cola Zero, Virgínia Fonseca, Nikolas Ferreira, Família Bolsonaro e Bobbie Goods. Do outro, três vezes "sim": sim, sim, sim. Eu fico com a segunda opção.

Dessa turma obviamente surgiram incontáveis artistas. Nomes que não estão interessados em militar através de sua arte, mas que nem por isso deixam de compreender a arte como dispositivo político que sempre foi. O autor Jeferson Tenório (O Avesso da Pele) comentou, em recente entrevista ao Sem Censura, que o letramento do brasileiro “não vem com os livros, vem com a música”, inclusive. É a partir da música que nós mobilizamos as coisas. Só pensarmos a relação da tropicália com a ditadura militar. E, se a música deixa de cumprir sua função nessa equação, os efeitos tendem mesmo à alienação. Por isso a importância de obras que contrapõem produções de ordem genérica, descoladas de subjetividades fundamentais à leitura de si e do outro.

Eu poderia falar sobre cada um dos álbuns abaixo, mas não vou, por pura preguiça. Esse dever de casa é de vocês. Nem vai causar cansaço, porque alguns já são conhecidíssimos. Mas adianto que, se considero clássicos, é porque são exemplares, modelares. Não seguem exatamente fórmulas prontas e propõem narrativas atmosféricas. Se tirar e pôr numa playlist qualquer, até dá certo, mas funciona melhor dentro do conceito disposto, que vai desde as capas até as texturas das histórias contadas. Nascidos atemporais.

De Primeira / Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua / Violeta / Sinto Muito / #1 / SintomaLetrux em Noite de Climão / Pajubá / AFIM / OPROPRIO / Rito de Passá / Um Corpo no Mundo / Japanese Food / Indigo Borboleta Anil / Ritual

Façam bom proveito!